> Sobreviventes e Testemunhos

NEKRYCZ, Miriam Brik

ARQSHOAH

RG:
SOB/31

Variações do nome:
Mirka

Sexo:
Feminino

País de Nascimento:
Ucrânia

Grupo:
askenazita

Data de nascimento:
01-07-1932

Data de falecimento:
18/11/2018

Profissão:
Professor(a)

Formação:
Curso para dar aula em jardim de infância

Cônjuge:
Henry Nekrycz (Ben Abraham)

Filhos:
Jacques e Edith

Irmãos:
Moshe Brik (Moniek), Hershl Brik e Duvidll Brik

Avós Paternos:
Itzak Brik e Channah Brik

Avós Maternos:
David Geier e Shendla Geier

Filiação - Pai

ARQSHOAH

Nome do pai:
Yaacov Brik

País de nascimento do pai:
Ucrânia

Profissão do pai:
Comerciante

Filiação - Mãe

ARQSHOAH

Nome da mãe:
Tauba Tobe Brik

País de nascimento da mãe:
Ucrânia

Religião da mãe:
Judaica

Rotas de fuga

Comunidade de origem:
Lutsk, Ucrânia

Opção pelo Brasil:
Familiares que residiam em Ourinhos (Sao Paulo)

Navio/vapor:
Paulo Toscanelli

Data de partida:
01/06/1951

Locais de parada:
Israel

Cidade:
Ourinhos, São Paulo

País:
Brasil

Data:
1951

Acolhimento:
Casa de parentes (tios)

Área de fixação:
Urbana

Entrevista

Entrevistado por:
Feige Faingesicht, Anita Pinkuss e Marina Grytz

Pesquisadores presentes na entrevista:
Marina Grytz

Data da entrevista:
22/05/1995 e 29/05/1995

Local da entrevista:
São Paulo, SP

Transcrito por:
Marina Grytz

Observações:
Entrevista concedida ao Núcleo de História Oral Gaby Becker AHJB. Áudio indisponível. Autora do livro "Relato de uma vida"
Morre a sobrevivente Miriam Brik Nekrycz: https://bit.ly/2GnEToj

Testemunho

Nasci em 1932 na Ucrânia, na cidade de Lutsk, cidade distrital com vida judaica dinâmica. Hoje, nada mais existe de judaico na cidade, pois todos foram mortos pelos nazistas.

Meu pai foi Yakov Brik e minha mãe Tauba Tobe Brik. Meus avós paternos foram Itzak e Channah e os maternos David Geier e Shendla Geier. Não posso dizer muita coisa, pois era muito pequena na época. Tenho um livro sobre "Lutsk", editado em Israel sobre a cidade, sobre os judeus e sobre a sinagoga maravilhosa em muitas gerações. Fiz uma pesquisa resumida sobre a cidade e a sinagoga representou durante o período do gueto. Era um amontoado, coitados, de pessoas famintas, maltrapilhas, doentes, geladas de frio, deitados no chão e morrendo na sinagoga. A cidade tinha, mais ou menos, vinte e cinco mil pessoas e muito poucos se salvaram. Os ricos foram levados para a Sibéria, entre os anos de 1939/41.

Meu pai, ainda solteiro, ajudava minha avó numa loja de cereais. Numa delas eles resolveram abrir uma loja de tecidos, até os soviéticos dividirem a Polônia com a Alemanha. Lutsk passou aos russos e fecharam a loja aos poucos, tirando as mercadorias e mandaram para minha tia, que morava em outra cidade.

Na cidade relacionamento com os nãos judeus era bom, normal.  A gente tinha medo de padre; dos moleques que atiravam pedras e gritavam com a gente. Eu estudava numa escola mista, municipal junto com crianças católicas, polonesas, ucranianos. Minha professora do primeiro ano me dá recordações maravilhosas que não havia distinção entre crianças polonesas e judias.

Os judeus, dificilmente transgrediam as lei. O kashrut estava dentro do sangue das pessoas. Meus pais não eram muito religiosos como meus avós.

Meu pai ia à sinagoga. Me lembro do meu avô estudando a Guemarah e nós, as crianças, éramos proibidos de entrar na sala, quando ele estudava. Nós morávamos no mesmo prédio, mas, em casas separadas. Ele vendia lenha. Nas quintas-feiras vinham os mendigos e ficavam na porta esperando uma moeda.

A sinagoga grande estava na parte antiga da cidade e, naquela época, ainda não era permitida a moradia de judeus dentro da cidade. Aos poucos, foi construída essa sinagoga com torres de vigia. Depois outras sinagogas foram construdas. Era uma cidade de muita cultura, de judeus eruditos que estudavam a "Torah" e que depois se espalharam para outras cidades da Polônia. Muitos chalutzim sairam de Lutsk.

Depois da Proclamação Balfour, meus tios foram para Israel com  conhecidos, primos de todas as redondeza, inclusive, a família de um tio do meu pai, muito rica de Lutsk. Ele tinha uma fábrica de cerveja que se chamava Brovar. Era um dos judeus mais ricos da cidade e resolveu vender tudo, de repente. Levou toda a família para Israel e salvou todos no começo dos anos trinta.

Eu tinha três irmãos. Eu era a mais velha. O Moshe, um ano mais novo e dois irmãozinhos gêmeos, que nasceram em trinta e oito.

 Um tio, irmão da minha mãe, veio morar no Brasil. Meu tio resolveu imigrar porque não suportava o antissemitismo. Em  e trinta e nove, quando eclodiu a guera entre a Alemanha e a Polônia fugimos, pois a cidade foi bombardedada. Fugimos para a cidadezinha onde morava a irmã do meu pai, Kopaczówka. Quando vínhamos nas caroças, os moleques gritavam, "oh, judeus! Não adianta fugir! Os alemães vão matar vocês todos!" Vi minha mãe muito triste, muito abalada e entendi que alguma coisa de ruim estava acontecendo. Soubemos que a Polônia foi dividida e que em nossa região entrariam os soviéticos. A opção era a melhor. Entre Alemanha e Rússia, então a gente já estava mais aliviados.

 Voltamos para casa, porque meu pai tinha ficado em casa. Só eu, minha mãe, as crianças e a caroça cheia de pertences. Voltamos de lá e assim vivemos dois anos.

Nós, as crianças, tivemos dois anos tranquilos. Voltei à escola, comecei a estudar russo. Os poloneses estavam derrotados e oprimidos. E os ucranianos não podiam chamar as crianças judias de "jid",era proibido. A palavra "jid" tomou forma de "yvrei". "Yvrei" e a palavra não era agressiva. Eu me lembro onde era a "kehilah" de Lutsk. O prédio era bonito e eles fizeram no local o "Palácio dos Pioneros". As crianças tornaram-se pioneras. Usávamos um lenço vermelho e tínhamos que fazer um juramento como pioneros. Lá havia jogos, danças, canto, cinema e outras atividades para crianças. E era uma novidade para e gostávamos muito disso. Incentivavam muito o estudo.

No regime soviético, eles tratavam muito bem das crianças e o incentivo aos estudos. E o aluno que se destacava nos estudos, na escola, recebia prêmios, elogios e diplomas era, realmente, muito querido. Então nós nos esforçávamos para estudar. Eu, principalmente, me esforçava para ser a primera aluna da classe. E quando eu trouxe o diploma de primera aluna, minha mãe ficou feliz; meus pais emolduraram o diploma. O grande medo era ser enviado a Sibéria. E ninguem sabia o que que podia despertar a ira do regime! Nós, como tínhamos essa lojinha de tecido, meus pais também tiveram medo.

Meu pai encontrou serviço, pois eles não toleravam quem não trabalhasse. Tudo pertencia ao regime soviético. Meu pai encontrou trabalho num quiosque de água gaseficada. Quando eclodiu a guerra, quando os alemães invadiram a União Soviética, aí foi, realmente, muito drástico. Acordamos de madrugada com bombardeio e  logo a cidade foi bombardeada e formou-se um pânico horrivel. Porque ninguem esperava essa guerra. Nem os soviéticos, nem os oficiais soviéticos sabiam. Ninguem esperava; ninguem sabia! Foi uma coisa tão repentina. As pessoas zanzavam, não sabiam o que fazer! Os soviéticos pegavam os caminhões e...e fugiam! Os judeus também, fugiam. Mas, nós crianças pequenas, meus pais não podiam fugir. E meus avós não estavam na cidade, porque todo ano, eles iam passar alguns meses de verão na casa da filha. E depois, à tarde, vieram, novamente, os aviões alemães e começaram a bombardear a cidade e todo o nosso bairro! O nosso bairro era onde as tropas soviéticas se deslocavom em direção à Rússia. Era aquela estrada, era aquele bairro e nós morávamos naquela rua principal. Nossa rua foi incendiada. Sei que lá, abaxo tinha um campo grande, uma várzea, perto do rio. Todos fugiam para aquele lugar para se proteger do fogo. Papai nos levou para lá e ele correu, depressa, para nossa casa e ele tirou as coisas nossas, roupas, pertences e jogou num porão, uma adega. Lá na nossa casa; ele jogou tudo dentro dessa adega, cobriu com latarias e com coisas para proteger do fogo. A cidade toda em chamas, queimava. Os aviões metralhando; as pessoas gritando, chorando. O papai ainda conseguiu chegar, nos encontrar lá e nós fugimos de lá, a pé. E fugimos para uma aldeia.

Os ucranianos não nos deixaram entrar. Não deram nem uma caneca de água ou um pedaço de pão. Eles  cobravam fortunas e a gente tinha que pagar porque as crianças pequenas choravam. Ficamos dois dias naquela aldeia. Os alemães vieram três dias depois e expulsaram todos para voltar à cidade. Meu pai fechava meus olhos para que eu não visse os cadáveres de perto. Carregava um irmãozinho no colo. Que a minha mãe era uma pessoa que sofria de asma e ela tinha os acessos de tosse e a gente procurava protegê-la um pouco. Quando chegamos em casa tudo estava queimado mas, o nosso porão não. Fomos morar na casa da minha avó materna...Mas, logo no domingo cartazes na cidade, chamando os homens para trabalho...Eu sei que naquele domingo se apresentaram mil e setecentos homens e rapazes, a partir de dezesseis até sessenta anos Foram para a fortaleza da cidade, perto da sinagoga grande tinha uma fortaleza. Os homens que se apresentaram, não voltaram.

Na quinta-feira, três de julho, minha mãe saiu cedinho à procura de alguma coisa para comer. E ela viu, novamente, afixados os cartazes para que os homens se apresentassem com pás e enxadas e todos os cartazes estavam assinados: "Quem não obedecer as ordens, será fuzilado. Meu pai, meu tio pegaram as pás e forom ao trabalho. E não voltaram e não adiantava reclamar ao "Judenrat". De vez em quando vinham umas umas notícias, sem fundamento nenhum porque depois  da Guerra soube que eles fuzilaram todos naquela fortaleza. E ninguem sobrou. Ficamos somente minha mãe com quatro crianças pequenas, na casa da minha avó. Comida, não tinha. Os alemães davam oitenta gramas de pão por pessoa e para receber tinha que ficar em filas enormes por dias interos. As perseguições, os decretos, tudo que os alemães...imediatamente...todos os dias tinha outros decretos. Todos os dias eles exigiam outras coisas. Não eram só alemães, eram os ucranianos, também. Os ucranianos eram os colaboradores e faziam o trabalho pior do que os alemães, ainda, porque onde os alemães não entravam, os ucranianos entravam. E nós vivemos nessa agonia muitos meses. Sei que, no começo, a gente  vivia na base de troca e, aos poucos íamos tirando do nosso porão. Mamãe tinha medo de tirar tudo de uma vez. O bairro inteiro estava em escombros. Uma manhã, encontrei o porão vazio. Ficamos, completamente sem nada. Foi um sofrimento. Começaram a chegar os prisioneros russos muito maltratados. Eram arrastados pelas ruas, maltrapilhos, esfomeados, castigados, com as feridas expostas. Não podíamos suportar a dor e o sofrimento desses prisioneros e a gente colocava, às vezes, um pedaço de batata, um pedaço de pão na beira da calçada, para que eles pudessem pegar.  Depois, nós ouvimos que eles estavam sendo queimados em fogueiras, mortos de fome, de frio, de doenças. Estavam sendo queimados em fogueiras!

E lá estava melhor. Ninguem podia sair, para procurar vida melhor. Sei que quando estava se aproximando o inverno, a gente não tinha agasalhos. Só a fome e o sofrimento e as...e as desgraças que vinham diàriamente. Ouvimos que, em várias cidadezinhas próximas à nossa cidade, Lutsk, juntaram os judeus na praça do mercado e fuzilaram todos.

Quando os alemães entraram eles davam quinze, vinte minutos para pegar e sair da casa e a lacravam. Nós preparamos com antecedência  as roupas, os pertences e tudo preparado, em cima da mesa. Mamãe dizia: "A hora que...que precisar, cada um pega o seu pacote nas costas e vai, correndo. E, uma manhã, uma madrugada de inverno, de dezembro, ouvimos batidas: "Alles raus! Raus! Raus! Tudo raus! Raus! Fora! Fora! Fora!" Então, cada um pegou sua trouxa e saímos. Todos sairam das casas aos gritos, choro, criança para a rua, na neve. Eu já tinha assumido, como filha mais velha, a iniciativa de estar sempre ajudando a minha mãe. Sempre eu. Eu puxei a minha mãe e meus irmãos e nós nos dirigimos no caminho oposto. A casa da minha avó era perto da estrada de fero. Fomos andando pelos trilhos. Minha mãe, meus três irmãos e eu. Carregando as de coisas. Eu carregando o meu irmão, que eram pequenos.

Não vimos alemães, nem ucranianos; ninguem nos molestou. Chegamos até a casa da...da Bolka, uma auxiliar da família. Ela deixou-nos entrar e ficamos escondidos num quartinho pequeno, fechado. Aí, chegavam  os amigos, os ferroviarios e falavam que estavam mandando os judeus embora e, só lamentavam que as casas estavam sendo lacradas, que eles não podiam pilhar as casas, tirar as coisas. Ficamos tremendo de medo se eles nos achassem e nos delatássemos. Seria morte certa. E ficamos lá até que chegou o marido e  disse que os judeus estavam sendo mandados para o gueto. Saimos de lá e nós fomos andando de volta para a cidade. Aí, escureceu. No escuro, ninguem podia andar nas ruas. Havia o toque de recolher. Abrimos uma casa lacrada presa com um papel e entramos e  ficamos olhando pela fresta da janela a noite toda. E, assim, passamos a noite, até começar clarear. Pegamos os  irmãos e saimos de lá. E fomos andando, pela rua mesmo...Os alemães, só nos mandavam ir em frente. Eles não matam nem molestarom...nada! Só mandavom: "Raus! Raus! Raus! Depressa! Depressa! Depressa!" E nós, então, fomos depressa até que chegamos até o gueto. Chegamos até o gueto... instalado no bairo antigo da cidade. Era um bairro mais velho, onde estava a sinagoga...Tinha, também, a igreja católica. Fomos logo procurar nossa tia Chanka. Estava super lotado de gente.Ela estava com dois filhos. Não tinha comida, aquecimento. Se tinha água num balde, ela congelava!  No quarto tinha  duas camas do casal. Lá, se dormia em camas separadas. Nessas camas dormiam as crianças pequenas, atravessadas nas camas. Eu, e a minha prima Reisele que já éramos maiores, dormíamos em cima de uma cômoda. A gente escorregava. As mães, as mais velhas não tinham lugar onde encostar a cabeça. Ficavam sentadas nas caderas, adormecendo e cochilando, assim. No chão não se podia dormir porque  estava muito frio. As crianças ficavam dia e noite, nas camas, para se aquecer. Chorando de fome! A sorte, a única sorte que os camponeses quando vinham à igreja, traziam alguma coisa. E quem tivesse, ainda, pertences para trocar, trocavam por alguma alimento. De vez em quando, minha mãe, minha tia saiam, trocavam alguma coisa: faziam uma sopa. Eu me lembro que eu pedi para ir ver a Malka. Antes da Guera, tinha uma oficina de costura e a Malka era uma das costureiras que gostavam muito de mim. E eu, quando pequena, brincava muito lá...eu era o mascote. Elas brincavam comigo, elas me mimavam. Quando a minha mãe me disse que a Malka estava lá então, eu pedi, ela me agasalhou e fui ver a Malka. Tive oportunidade de andar pelos becos. No inverno, no gueto, as crianças não andavam nas ruas. Mas, lá eu andei pelos becos, por aquelas ruazinhas estreitas de Cidade Velha, que não conhecia antes. E lá, as pessoas estavam realmente num estado horrivel! Sem teto. Entrei e encontrei a Malka com uma criança no colo. Minha a mãe disse que viriam camponeses para me tirar do gueto. E me levar a Kopaczówka. Eu chorava, pois não queria ir sozinha. Minha mãe disse: "Você vai primeiro, que depois, iremos, também." Num domingo, quando os camponeses vinham domingo para a igreja. me embrulharam e me amarraram com as coisas e me levaram lá perto da igreja e me puseram numa carroça. Me cobriram e me levaram. Para sair do gueto, passamos por uma fila. Porque eles revistavam as carroças, passamos. E esses camponeses me levarom para Kupaczówka na casa dos meus tios. E lá, não tinha nem sinal de sofrimento! Estavam vivendo, ainda, na casa deles. Uma casa bonita, grande, não se passava fome e todos em casa: meus avos, meus tios, as crianças. Uma vida quase normal! Os camponeses, os amigos deles traziam mantimentos. E estava tudo normal! E eu voltei a ter uma vida normal: uma casa, uma cama, comida, ver todo mundo. Eu só me lembrava que no hall, na sala, pela porta, eu ouvia, na sala, meu tio e meu avô ainda rezarem com aqueles xales, os "talith", com os "tfilim", de manhã...E rezavam! Eu ouvia as vozes deles...Ainda sei aquele...aquelas vozes de...de reza judaica, alto. E eu achava aquilo bom! Só lamentava que a minha mãe e os meus irmãos não estavam ainda. E meus tios me acalmavam: "Mais, mais, mais um pouco, eles vem. E, realmente, vieram em várias carroças. Mas, no dia seguinte, veio uma tempestade! Os alemães invadiram a cidade e expulsaram as pessoas das casas, tudo, outra vez.  E as...primera das coisas é levar os homens pra trabalhos forçados. Invadiram a casa, levaram meu tio para trabalhos forçados. E o primero trabalho foi  demolir a sinagoga.  A sinagoga foi construida pela família do meu tio. No fim da tarde trouxeram meu tio agonizante.  Uma viga caiu na cabeça dele. Não tinha médico, nem hospitais. E, meu tio morreu. Na nossa frente e nós, chorando, gritando. Não adiantou nada! Depois, morreu o avô na  mesma semana que não suportou. Era idoso, já tinha...E todo mundo só dizia que era "tzadik", que o meu tio era 'tzadik".

E assim ficamos, novamente, a minha tia, minha mãe, minha avó e sete crianças pequenas. Eu, a mais velha de todas. A minha tia não podia mais. Estava quebrada! Ela não podia providenciar comida. Comecei a procurar nas aldeias aqueles...aqueles amigos do meu tio, Porque eles negociavam e tinha um relacionamento bom com os camponeses. Inclusive, as nossas mercadorias, que nós mandamos da loja. Eu pegava minha prima Reisele e iamos nas aldeias e eles davam um pouco de comida. E eu trazia.

 De repente, ouvimos que ia se instalar um Comando da SS, na cidade. Eles vieram e começaram a procurar uma casa para instalar esse Comando, um quartel-general. Como a casa da minha tia era muito bonita e era grande e estava num lugar de destaque na cidadezinha, na estrada, eles vieram, nos expulsaram da casa e se instalaram. Era um SS bruto, sádico. E tinha dois ajudantes, Otto e Albert que eram demônios! Nós os chamávamos "os beresolupes".  Todo mundo se escondia deles. De nossa casa, eles controlavam toda a cidade. Chegavam atirando. Invadiam as casas. Pilhavam, tiravam tudo!  Sadicamente, batiam nas pessoas. Uma vez, eles invadiram nosso casebre, chutaram a porta com um pontapé E aos gritos e chicotadas bateram em todos. Levaram minha tia, mandarom subir num caminhão e começarom bater nela e a jogarom para baixo do caminhão. Aí, o otro com uma corrente de ferro batia nela. E mandava ela subir. O de cima, batia nela em cima e o de baixo batia nela embaixo. E minha tia ficou lá, ensanguentada, jogada no chão e nós ajudamos trazê-la de volta. Minha mãe, minha avó e as vizinhas trataram dela. E, aos poucos, ela foi melhorando, mas, ela nunca mais ficou boa.

 Quando começou a primavera, minha mãe ouviu dizer que numa outra aldeia, uma fazenda que pertencia a um "Volksdeutsch". onde aceitavam judeus para trabalhar. Minha mãe achou que seria bom para nós. Levamos nossa coisas e conseguimos um casebre com um pedaço de terra e nos instalamos. Minha mãe e  minha tia iam trabalhar na roça e minha avó ficava conosco. Ela cozinhava, fazia um macarão de água com farinha e colocava na sopa  e tudo se desmanchava, uma papa. As vezes, colocava uns pedaços de batata. A avó fazia e nós levávamos a sopa para minha mãe e a  Reisele, uma prima. Era a sopa no almoço. E assim nós vivíamos. Pelo menos, sem aquele medo e  ninguem nos importunava.       

As moças, às vezes, deixavam levar o rebanho para pastar. Elas queriam namorar, sair...Aí eu levava aos domingos, e nos davam alguma comida. Não passávamos tanta fome. E a mãe trabalhava. Uma sexta-feira, fui levar a sopa. Quando cheguei vi uma coisa estranha! Minha mãe me contou que estavam chegando noticias de Lutsk e que cercaram o gueto e levando todos os judeus em caminhões, para fora da cidade e matando-os em valas enormes. Quando nós ouvimos isso, nós saimos de lá correndo, para falar com o capataz e pedimos ajuda. Ele não prometeu proteção nenhuma. Disse que ele estava apavorado. Saimos correndo de volta para casa. Minha tia, minha mãe, todo mundo corria para casa. E resolvemos levar a família para a floresta.Para se esconder, porque sabíamos que se estavam matando a uns catorze, quinze quilômetros adiante.. Levamos um pouco de coisa e um pouco de comida e fugimos para a floresta. E nos escondemos na parte densa da floresta, onde tinha um pântano. Nossa avó não quis nos acompanhar, não tinha mais forças. Os idosos se juntaram numa casa perto da floresta. Era uma sexta-feira. No sábado, vieram os alemães. Quando chegava a noite, minha mãe, minha tia, eu, a Reisele, saíamos da floresta. Nos campos ainda tinham batatas, hortaliças. A gente pegava um pouco, um balde de água. Fazia um buraco na terra e uma fogueirazinha, diariamente a gente ouvia tiros, eles procuravom os judeus na floresta. Quando ficou mais frio, em setembro, antes das Festas Judaicas, minha mãe falava que o Messias estava próximo para vir, porque nunca os judeus passaram por uma desgraça tão grande e, com certeza, ele viria em Yom Kipur. E nós estávamos aguardando esse Yom Kipur para vir o Messias. Mas, passou Yom Kipur e o Messias não veio. E, aos poucos, foi chegando o frio. E nós sentados naquela florestfza. Quando chovia, chovia e quando esfriava, esfriava. Então, resolvemos para proteção cavar um "bunker", um buraco. E nos empenhamos. Éramos nós, a família e o meu irmão. Quando nós fugimos, o meu irmão  ficou na casa daquela "Volksdeutsch". Ela disse que ele podia ficar na casa dela. Éramos nós três, crianças, e a minha mãe, a minha tia com mais três crianças pequenas e um casal com um filho já maior, filho de uns dezessete, dezoito anos. Mas, era um tão medroso, que não ajudava nada. Ele era mais medroso do que todo mundo! E...e nós, então, ficamos lá. Começamos cavar o "bunker". Jogávamos a terra longe para non deixar vestigios. Cobrimos o bunker com troncos, e folhas...Achamos que era um esconderijo bom. A gente dexou um pedaço para se enfiar no "bunker"...Também camuflado; a gente entrava lá dentro, fechava aquele "bunker" e pronto! E achávamos que estávamos bem protegidos. Durante o dia, todo mundo ficava quieto, num falava nada! Para se tivesse alguem fora, alguma criança colhendo galhos, ou passando na floresta, não ouvisse vozes. Quando os camponeses já tinham se recolhido dos campos e não se podia pegar nada, tinhamos  que pedir esmolas. Os camponeses reconheciam os judeus. Eu  assumi as andanças à procura de comida. Trazer comida para minha família. Eu saia de noite e andava pelas aldeias, pedindo esmolas. Pedindo, batendo nas portas. Alguns soltavam os cachorros. Outros xingavam. Outros davam um pedaço de pão. E assim eu andava pelas aldeias recolhendo o que podia pão, alguma batata. E o que eu conseguia levava para a floresta. Cada dia era uma coisa! Ficávamos sentados lá dentro daquele buraco escuro. Quando chovia, o buraco enchia de lama. Ficávamos molhados, cheios de piolhos. Cheios de sujeira, sede, fome, medo e com frio, depois, também! As mães, ainda, queriam dar ânimo! Que vem o Messias! Que vem isso! Que vem aquilo! Que logo os alemães vão  fugir, logo a Guerra vai acabar. É desse jeito se achava outra desculpa para ter a força e aguentar mais um dia. Às vezes, a minha prima me acompanhava. No fim de outubro, eu sai com a minha prima Reisele, e fomos andando por outro caminho; outra aldeia. Lá tinha uma fila de casas e eu bati na primera casa. Saiu uma mulher jovem e diferente de todas as outras que nos xingavam, dizendo: "Eh, judeus, vocês ainda estão aqui?" Ela abriu a porta e deixou a gente chegar perto. Ela nos deu a nós duas. Dava, até coisas para levar...De repente, ela perguntou para mim: "Você...não gostaria de ficar aqui trabalhando comigo?" Era uma coisa que ninguem esperava ouvir!  Eu? Ficar numa casa? Viver numa casa? Ter comida, ter...Mas, do outro lado, não podia dexar a minha família sozinha...E eu disse: "E a minha família? Vai morrer de fome! Como é que eu vou ficar?" Então ela disse: "Eu vou dar comida para você levar a eles.” Era uma coisa inacreditável! Assim mesmo, nós corremos para a floresta. Eu conhecia aquela floresta como eu conheço, agora, as ruas do meu bairro. Cada árvore, cada...cada coisa, eu conhecia! Corri, corremos para contar a mamãe o que estava acontecendo. Que ela queria que eu voltasse! A minha mãe ficou tão feliz! A minha mãe chorava de alegria, de felicidade! Disse que era a mulher mais feliz do mundo! Que ia ter dois filhos em casa de...com camponeses! Coisa inacreditável! Ela ficou tão feliz! Ela me beijava; ela, minha tia me beijavam e me mandaram na mesma noite para lá, antes que a mulher se arrependa. Eu cheguei lá e...e ela me dexou entrar. Só que ela nào me dexou entrar na casa dela. A casa era dividida. Uma parte da casa era acabada e uma parte era inacabada. Sabe, os camponeses começavam construir: uma acabou, a outra não. E aquela casa in-acabada, ela me mandou dormir lá, naquele...chão. Mas, para mim era um palácio. Dentro dentro de uma casa, com teto. Depois, de manhã, ela mandou me lavar; ela me deu uns trapos dela para vestir, e me mandou trabalhar! Ela me perguntou se eu sabia fazer. Eu sabia fazer de tudo! Tinha dez anos! Mas, eu não sabia trabalhar! Aí, ela me xingava, gritava. Ela não me batia. Mas, ela xingava....E...e eu chorava e ela...mas, ela me dava  comida para levar e, à noite, eu levava comida aos meus. E chegava lá e eles ficavam felizes. Um domingo, ela  preparou a comida e me mandou ir...Era um domingo à tarde. Eu cheguei na floresta e, de longe, eu ouvi gritos. 'Vi gritos e choro. Eu pensei: "Não, não está acontecendo nada com os meus! São gritos, gritos... não eu? Meus? Estão no "bunker", escondidos! Vai acontecer nada!" Eu fui andando...Fui andando...Fui chegando mais perto. Gritos, choro. Aí, eu comecei distinguir: "Esse choro é conhecido! Esses gritos são conhecidos, eu conheço esses gritos!" E tiros. Aí, eu fui ainda correndo mais. De repente, eu cai. E quando eu cai, já era perto deles; acho que eles ouviram cair...Caiu alguma coisa, não sei, aí vieram os tiros voando as balas perto de mim. Mas, eu estava deitada no chão. Eu ouvi os tiros. Ouvi tiros e mais tiros e gritos e choro e tiros e eu num sei o que aconteceu comigo. Quando acordei estava tudo quieto na floresta. Aí, eu esperei mais um pouco e eu sai do meu esconderijo. Eu fui até lá. Quando cheguei, encontrei todos mortos. Minha mãe, meus irmãozinhos, minha tia, meus primos, todos mortos. E, fiquei lá, olhando eles, chorando. Não podia fazer mais nada. Depois, começou a escurecer. De repente, eu fiquei com medo que eles pudessem voltar! Um medo me atacou e eu sai correndo de lá, chorando, correndo fui até à casa da Stevtia, a polonesa. Cheguei lá e ela começou a me acalmar e começou me dizer que ela cuidaria de mim e que eles não iriam suportar o inverno; que eles iriam sofrer o frio e fome e não iriam sobreviver o inverno de qualquer jeito e...e pronto! Eu fiquei na casa dela trabalhando e cuidando do nenes dela e...e fiquei lá.

Cada vez aprendendo mais e...e, aos poucos, surgiu um entendimento entre nós. Um entendimento, ela começou gostar de mi, eu comecei gostar do menino dela e...e ela começou a ter confiança em mim. Quando esfriou e a neve começou entrar dentro daquela casa inacabada, com as janelas abertas, com as frestas abertas, ela me levou p'ra dentro da cozinha, quentinha, onde ela dormia com o menino. Me pos a dormir na cama dela. Dormíamos os três na mesma cama. Mas, o problema era que procuravam judeus. Os alemães continuavam atrás dos judeus. E tinha aquelas batidas de alemães, ucranianos, procurando judeus. E esse foi o meu grande medo. O medo de ser delatada pelos  vizinhos. Esse medo me atormentava muito. E se a pegassem protegendo uma criança judia? Iam matar ela também! Então, ela disse que eu precisava ser católica. Porque ela dizia para todo mundo que eu era sobrinha dela, que ela trouxe de outro lugar. E como sobrinha, eu tinha que ser católica. Eu tinha que saber rezar; tinha que saber tudo sobre o Catolicismo. E ela começou me ensinar as orações, as comidas, as festas, os costumes. Tudo! Tudo! Se alguem me perguntasse, eu saberia tudo. Comecei, pelo medo de ser delatada, não podia pronunciar uma palavra em "idish". Eu tinha que falar o polonês com sotaque campones, não com aquele sotaque judaico que os judeus tinham na Polônia. Eu tinha que me esforçar e ela gritava e ela me xingava se eu não conseguisse...O medo me fez esquecer todo o meu passado! A língua "idish", o que eu lembrava do Judaismo. Eu esqueci tudo! Comecei a me ajoelhar, a fazer as orações católicas, a fazer sinal da cruz, sabe? E rezar pra Jesus e quando tinha um Jesus pendurado na parede eu me derrretia de orações, de para Jesus. Era católica, mais que católica, mais que o Papa! Mas, não ia à igreja. Ela não frequentava a igreja e não me mandava também.

Eu era católolica, cem por cento! E todo mundo tinha que saber que eu era católica. Durante o inverno, vinha uma vizinha bisbilhotar na nossa casa. E a gente tinha muito medo dela. A Stevtia era costurera. Vinham pessoas para entregar costura. Mas, eu não ficava perto, eu era a sobrinha dela. E, quando essa vizinha chegava lá para bisbilhotar mesmo, olhar para mim, perguntar, a gente tinha medo. Stevtia me mandava fazer alguma coisa em outro lugar, para não ficar perto da mulher e ela despachava a mulher. Era a pessoa que gente mais tinha medo. E tinha um "Volksdeutsche" lá, que era o comandante da aldeia. Ele sabia que eu era judia. Ele sabia! Mas, ele não se importava. Ele dizia: "Se ninguem vier denunciar, ele não fazia questão.Mas, se alguem viesse denunciar, ele teria que me matar. Nosso medo era por causa da vizinhança. E quando vinha uma batida à procura de judeus, a gente já sabia. Ele avisava. Uma vez ele, até sozinho veio avisar e ela me escondia! Ela me escondia no armário do quarto gelado, não aquecido no inverno...Então, ela me escondia no armario daquele quarto. E quando vinha a batida, procurava em todo lugar mas, naquele quarto gelado não procuravam. E assim eu passava! Eles iam embora, eu saia do armario e pronto! Eu trabalhava o inverno todo lá essa mulher, chamava Piaczniska, vinha lá e a gente tinha medo que ela descobrisse o meu segredo e ela denunciasse. Ela ganhava uma recompensa, também! Até que o inverno passou e no verão eu tinha que levar a vaca para o pasto e encontrar os moleques. Eles eram ucranianos e poloneses eram piores do que os adultos! Porque os moleques, sabe os moleques, entravam no fundo da alma da gente. E os moleques, também, ficavam contando piadas sobre judeus. E contando coisas que eles ouviam em casa. E se ainda pegavam algum judeu, então, a aldeia inteirinha tinha assunto. Eu tinha muito medo de me de mostrar algum gesto. Esse foi o meu tormento. Depois, a Stevtia resolveu mudar-se de lá. Ela se mudou para outra aldeia junto dos sogros dela. O marido estava no exército russo, combatendo os alemães. E me levou junto. A família toda era grande. Todo mundo trabalhando; eu trabalhando...Só que era mais dificil porque eu tinha que aguentar...Se tinha que aguentar os caprichos dela, agora tinha que aguentar os caprichos de todo mundo! Mas, eu não ligava. Eu trabalhava com todas as minhas forças, para agradar todo mundo. E, assim, o tempo passava! E, cada vez menos, procuravam  judeus. Aquela menina ucraniana ou polonesa, junto com os outros e rezava para meu Jesus e me ajoelhava e fazia sinal de cruz, como todo mundo e até já tinha me esquecido que, um dia, eu era judia. O meu irmão na semana seguinte que estava com ela, ela me deixou ir a outra aldeia encontrar meu irmão. Eu contei a ele o que aconteceu com a família toda e choramos juntos. Mais a gente resolveu não se encontrar. Que era perigoso. Tanto pra ele, como para mim, como para Stevtia. Era perigoso de encontrar um ao outro. Então resolvemos deixar o tempo passar. Cada se esforçar como a mamãe recomendou. Trabalhar, esforçar, ser obediente, ser honesto no trabalho e procurar sobreviver. Quando me separei da minha mãe, minha mãe me disse "Se você conseguir sobreviver, lembre-se de nós...E lembre-se que você tem família...você tem família. E vingue-se por nós! " Assim minha mãe pediu, em "idish" : "Nem ni kume! Nem ni kume!". Com meu irmão, separei dele. Ele ficou lá, eu fiquei aqui. Eu sei que se passaram anos e eu lá na casa da Stevtia trabalhando e cuidando do menino. O menino substituiu meus irmãozinhos. Eu gostava muito do menino e cuidava muito dele e com todos eles,  sabe, como eles viviam. Eu também vivia...Os ucranianos, quando acabarom com os judeus, começaram a perseguir os poloneses. Porque a briga entre os ucranianos e os poloneses era de longa data. Porque a Polônia ocupou as teras deles, eles queriam a Ucrânia independente. Eles eram inimigo dos poloneses. Todas as noites a gente via incendios. Eles incendiavam as propriedades dos poloneses, matavam, massacravam, pilhavam  todos os bens dos poloneses e era, realmente, horrivel de ver essas...esses incêndios.

Então, a Stevtia resolveu mudar-se e me levou junto. Acontece que de dia, ficávamos todos lá. À noite, ela me deixava sozinha naquela propriedade. E eu tinha muito medo de ficar lá. Tinha medo dos poloneses, dos ucranianos. Depois, no fim de 1943, começamos a ouvir rumores que a Guerra estava mal aos alemães e que estavam recuando e que os partisanos estavam atacando comboios alemães. No inverno, trouxeram trabalhadores escravos, maltrapilhos, faminto, vigiados por guardas ucranianos, também. Os ucranianos deixavam esses homens entrar nas casas para se aquecer ou pedir um pouco de comida. Os homens estavam cavando trincheras. De repente, percebi que muitos deles entravam na casa e me olhavam com lágrimas nos olhos e falavam "Kishlein". Eles eram judeus húngaros que estavam sendo arrastados pela Ucrânia e trabalhando como escravos. Depois, sumiram. Depois, soube o que significava "Kishlein": menina pequena. Vieram os bombardeios e, uma noite, estávamos escondidos numa casa mais protegida em Bryszcze. Uma mulher disse que morava no Brasil e resolveu voltar para a Polônia e ver essa guera. Me lembrei e peguei um pedacinho de papel, escrevi "Brasil" e costurei dentro da barra do meu casaco. Em dias, a região fui libertada dos alemães e comecei a pensar que eu era...judia; que eu tinha que fazer alguma coisa! Fui procurar meu irmão e me disseram que a propria "Volksdeutsch" o amarou pelo punho e o arrastou aos alemães. Vi que não tinha mais irmão.

Pensei em voltar a Lutsk, e ver se encontro meus famíliares. Fui e encontrei a cidade danificada e em nossa casa não tinha ninguem. Eu não encontrei ninguem! Perguntei pelo meu pai e vi que estava sozinha, sem ninguem. Voltei a aldeia e continuei com eles. Stevtia queria ser independente, morar na casa dela. Eu sabia que a casa da minha tia em Kopaczówka não tinha sido queimada. Fui ver a casa e pedi a casa, que tinha sido invadida por outras famílias e nos deram  um quarto. Fiquei morando lá com ela. Depois, recolhi, junto com um soldado russo judeu me ajudou a recolher poucos pertences nossos; era muito perigoso voltar às casas dos ucranianos, que eles matavam os judeus. "O judeu! Você ainda vive?" Matavam a facadas. E esse soldado russo foi comigo. Reavemos alguma coisa e dei tudo para Stevtia: uma máquina de costura, eu consegui trazer.

Voltei a estudar. O marido dela chegou, mas, não ficou porque diziam que ele tinha outra mulher na Russia. Ela ficou sozinha, com a criança. E comigo! Às vezes, ela me dexava sozinha no quarto; ia para a casa dos sogros.

 Em Kopaczówka, alguns judeus se juntaram para morar juntos. Uma senhora que sobreviveu com duas filhas. Em outra casa, perto do moinho, vieram duas moças judias me procurar. Pensei: "talvez alguem da minha família que se salvou”. Elas queriam me tirar lá da Stevtia. Queriam saber tudo sobre mim, sobre minha família e queriam me levar de lá. Eu não queria ir embora. Mas procurar parentes me fez lembrar do papelzinho: Sim, eu tenho parentes no Brasil! parentes no Estados Unidos, em Israel; dos meus tios, também. Minha mente ficou livre do medo! Mas, disse: "Eu já tenho a minha família, Stevtia, Piotrus. Não quero saber de mais nada!". Mas, entraram em entendimento com a Stevtia que me falou "Vai com elas! Quem sabe, você gosta!" Depois, resolveram o seguinte "Venha só por alguns dias. Nós prometemos traze-la de volta pra cá. Fui com elas! Só me chamavom Kind. Criança. Fiquei com elas. Tinha uma mãe idosa, também, a Babtia. Naquele lugar, fizeram uma pequena comunidade de sobreviventes e se preparando para o "Pessach", assando "matzot", e, aos poucos, fui me lembrando das coisas da minha casa! E falando em "idish". "Maniele, você lembra disso? Você lembra daquilo? Você lembra dessa palavra? " E, aos poucos, fui me lembrando. Eu só lembrava mas não abria a boca. No último dia de "Pessach", me levaram para rezar pelos mortos. E como todo mundo chorava, eu comecei a chorar junto. Eu começava a me lembrar da minha casa, dos meus pais, da minha família, dos meus avos, dos Feriados, das coisas. Eu era católica, me ajoelhava e não me impediam. Mas, de repente, eu pensei: Não! Tenho que voltar e assumir o que os meus pais eram! E, assim aos pocos, fui assumindo, fui assumindo o "Idishskeit" e não me deixavam voltar a Stevtia. Até que um dia, elas me disseram que iríamos embora! Elas conseguirom um vagão de trem...e embarcamos a vaca da Babtia.

Uma chamava Rosa e a outra, Judith. Fomos embora. Queríamos chegar a Lublin. Mas, quando nós nos aproximávamos da Lublin, nós ouvimos sobre o massacre, um "pogrom" perto... e resolvemos seguir viagem. Aí, o trem foi parar perto do mar Báltico. Chegamos a Allenstein, perto de Koenigsberg. Aí eles pediram para levar o trem a Lodz, onde descemos eu, a Babtia e a vaca..

Foram procurar um lugar para morar. Tínhamos que vender a vaca.

Vendemos a vaca lá mesmo e fomos morar em Lodz. Num quarto, num apartamento que pertencia aos judeus. Quando chegamos, eles anotaram todos os dados que eu me lembrava: meus tios, família, todos que estavam no Brasil, nos Estados Unidos...Eu não lembrava sobrenomes. Eu sabia o sobrenome dos meus tios, em Israel Brik. Os meus, irmãos do meu pai. Mas, as irmãs da minha mãe, não sabia sabia.

As paredes estavam cobertas de bilhetinhos, nomes. Todo mundo procurando alguém! De vez em quando, alguem começava a gritar e chorar que encontrava alguém. Eu olhei aqueles bilhetinhos e não encontrei ninguem de Lodz. Eu ingressei na primera escola judaica da cidade, onde os professores eram sobreviventes e as crianças orfãs, onde pela primera vez ouvimos cantar canções judaicas e hebraicas. Fizemos representações e as pessoas vinhom ouvir-nos e choravam de alegria e de tristeza. Éramos as primeras crianças que vieram depois da Guerra. Ficamos mais algum tempo em Lodz. Depois, embarcamos, clandestinamente para Berlim. A gente queria sair, antes que os russos fechassem as fronteras. E pegamos um táxi clandestino que nos deixaram numa estrada, na neve. Foi uma odisséia,

O marido da Rosa Enton, a Judith, a Rosa e eu. Na estação de trem, barraram o marido da Rosa porque ele era ex-militar e tinha fugido do exército.  Queriam prendê-lo de novo! Em Berlim, ainda, tivemos que passar, clandestinamente, para o lado americano e acabamos ficando num campo de refugiados, em Schlachtensee  e aí, sossegamos. Começarom as organizações sionistas, Joint, UNRA que estavam juntando um grupo de crianças orfãs para levar do outro lado da frontera. A Rosa e a Judith me inscreveram para aproveitar as regalias. Fui a um campo de crianças e jovens de todas as organizações sionistas, chamado Aschau bei Kreiburg. E o nosso grupo teve a sorte de ter um casal que se salvou da Guerra. Eram de Lodz e assumiram o nosso grupo. Eram como pais e cuidavam da gente. Tinha crianças que sairam  dos campos de Auschwitz e pareciam selvagens! Crianças que agarravam um pedaço de pão e o escondiam, ainda, aquele pedaço de pão e não deixavam ninguem se aproximar! Era horrivel! E, com todo o carinho os atendiam com todo o amor...Chamavam-se Helen e Rudolf Loeffel. Eu me apeguei muito a eles e aproveitei e aprendi muito com eles e sou muito grata ao casal. O senhor Rudolf dizia que ele gostaria que chegássemos e escolhessemos o movimento sionista que nos agradasse. Éramos sionistas, almejávamos viver em "Eretz Israel";  Tinha crianças que encontraram família nos Estados Unidos, Austrália! Uma menina encontrou o pai dela de quem se separara  quando ela era muito pequenininha. O pai nem acreditava. Veio e a menina não quis ir com pai, pois o estranhava. Ela queria ficar conosco, com o senhor  Rudolf, com dona Helen. Mas, aos pocos, eles conseguiram convencê-la. O pai cobriu-a de mimos e ficamos com ciúmes. Havia a Lili, uma menina húngara, que estava em Auschwitz, e sofreu as experiências do Mengele. Ela lembrou que deram uma injeção e perdeu os sentidos e só acordou num hospital, na Rússia. Num sei quanto tempo levou. Esta menina, entre todos, era a mais revoltada de todos. Ficava deitada num beliche e não queria saber de nada, nem  comer, nem se lavar.

A gente tinha que fazer tudo pra ela...Mas, aos poucos ela se revelou uma moça maravilhosa!, alegre, expansiva, linda. Com paciência, perseverança, esses dois conseguiram milagres desse grupo! Permanecemos em Aschau quase um ano. Era um campo muito bonito. As casas tinham duas moradias. Disseram que lá moravam trabalhadores alemães das fábricas subterranêas de munição perto de Muenchen. Cada parte da casa tinha uma sala grande. Uma ante-sala e um banheiro. Era cheio de beliches. Na ante-sala tinha um fogareiro e o banheiro! O banheiro era bem confortável. Nosso grupo era dividido aos rapazes e outro às meninas. Um dormintório minúsculo aos nossos  "morim", Rudolf e Hellen. Lá, eles dormiam.

Esse campo como os outros eram mantidos pela UNRA, pelo Joint, instituições americanas para refugiados de guerra.

Esse casal falava, principalmente polonês conosco. O Rudolf era advogado renomado, antes da Guerra em Lodz e Helen era formada na Sorbonne, na França. Ela sobreviveu como governanta de poloneses ricos, que tinham o luxo de uma governanta. Rudolf sobreviveu na parte ariana de Varsóvia. Eles fugiram de Lodz a Varsóvia para que ninguem os reconhecessem. ele sobreviveu pois tinha aparencia ariana, falava polonês e seu sobrenome era alemão. Lutou na Resistência polonesa em levante polonês não de judeus

Tivemos aulas e estudava para recuperar o tempo perdido. Tínhamos professores; estudávamos hebraico e todas as outras materias e Sionismo, o "idishkeit' e  eu queria ir a Israel. Mas, não vinham os certficados e resolveram mandar a gente pela "Aliah Beit", a "aliah" clandestina. Queria muito seguir com meu grupo e fui pedir ao Presidente do Congresso Judaico Naum Goldman. Fui pessoalmente, até Muenchen, pedir que ele me incluisse na lista, que fez pouco caso. Mas quando chegou a vez eu estava na lista junto com meus amigos em final de 1946 no inverno. Ficamos alojados numa casa grande quando passamos a outra casa na montanha com discrição e sem revelar nossa identidade na França. Lá, estudávamos e éramos apartidários. Aí, nosso grupinho se juntou a outro religioso. Eram do "B'nei Akiva" e nos apegamos à religião. Aprendi as orações, canções, a os costumes judaicos.  O 'B'nei Akiva" não é uma organização onde as  moças podiam dançar com os rapazes, conversar

Na véspera do "Pessach" recebemos a ordem de seguir viagem. Cada um recebeu um pacote de "matzah e uma garrafa de água potavel ao navio. Eles disseram que era nossa defesa contra os ingleses. E, se os ingleses tomassem o barco, todos atirariam as garrafas nos ingleses. Era a nossa resistência, nossa revolta. Descemos e como nos despidissemos do "Galut", da escravidão, nós também, nos despedimos da Europa dos infortunios e estávamos indo a "Eretz Israel". Era uma felicidade que só na época poderia existir porque, éramos crianças, jovens e estávamos indo para nossa pátria. O navio não estava preparado, não era transatlântico, não era viagem de primera classe e iria ser dificil e muito sacrificada. Mas, a realidade superou a expectativa!  Era, realmente, horrível! O barco estava superlotado e tinha três andares com beliches. Sem um ar, se tornou horrível! As pessoas começavam a gritar, chorando, gemendo e aquela sujeira pelo abafo. Estava, realmente, insuportável. Subir nos convés, não podíamos, porque tínhamos que manter a segurança. Porque o barco tinha que estar livre, disfarçado, camuflado, como se fosse um barco pesqueiro ou de carga e não podia ter gente à vista. Eramos três mil e quinhentas pessoas! O navio foi batizado com o nome de Theodor Herzl. Era o único que tinha menos pessoas que o Exodus de "maapilim", imigrantes clandestinos. Só que foi horivel! Não podíamos podíamos comer nada pois eramos religiosos. Era Pessach e era só "matzah" e o leite. Mas, ninguem aguentava tomar aquele leite. O barco foi interceptado pelos ingleses.  A gente revesava para o convés. À noite, era mais permitido subir.

Os "destroyers" nos cercaram e os ingleses começaram a dar ordens; e pediram calma. Todos estavam agitados, decepcionados, doidos pelas circunstâncias, pelo sofrimento. Nós já estávamos às portas de Israel e, de repente, fomos pegos. Sabíamos que quando os ingleses interceptam os navios, eles levavam o barco para Chipre. De repente, alguem começou a cantar o "Hatikva". E todos os três mil, ou três mil e quinhentos, não sei, todo mundo estava em cima. Todos começamos a cantar em tom vigoroso! Quando acabamos, veio a ordem de atirar as garafas em cima dos ingleses. Começamos a atirar nos "destroyers" encostados no nosso barco. E eles começaram a atirar em cima de nós e matarom três rapazes e outros ficaram feridos. Encostaram pranchas, e mandaram todo mundo descer. Quando descemos ao terceiro porão estava inundado de água e ficamos alarmados. Tinha gente idosas, mulheres com os nervos na flor da pele. Começou uma gritaria! um  panico que pensavamos que iam nos afundar. O navio balançava e a água pelas beliches. Subimos todos para o convés e ficamos a noite toda. De madrugada, avistamos as luzes da costa Palestina e, o sofrimento foi grande! Aí, rebocarom a gente até Haifa. E ficamos no porto isolados. Durante o dia, de manhã, eles tiraram os mortos e os feridos. Os tres rapazes que vieram da Europa com a gente!!! Em Haifa, no porto, vimos demonstrações  os israelenses, com banderas, com cartazes e gritos. Barcos da patrulha inglesa cercaram nosso navio para ninguem pular, sair de la. Assim ficamos o dia intero. Depois, encostaram dois navios-gaiola, cercados com arame, como se fosse uma gaiola e  passaeram para eles para levar a Chipre. E a gente não queria entrar naquilo! Arrastaram-nos. Como nos navios não comportavom tanta gente eles iam e voltavom e, isso demorou. E ficamos no navio, em Haifa.

Acho que só fomos levados no dia seguinte para Chipre. quando entrei naquela gaiola fechada com guardas nos vigiando, foi realmente horrível! Foi a gota, duas horas. Depois nos transportaram em caminhões a uma planície com tendas e areia. Tinha um campo onde as crianças e os jovens ficaram alojados, crianças desacompanhadas. No meu grupo, era a mais nova e não tinha quinze anos. Os alojamentos eram barracões de lata que esquentavam no calor de Chipre.

Aos poucos, a gente foi se adaptando: aprendemos os costumes e os hábitos - usavam roupas, pareciam uniformes, azul e branco. Nos barracões, separados por lonas eram para sala de aulas e passava uma brisa e havia lavatorios, onde se podia tomar banho. Como não havia água suficiente a gente tinha que ficar na fila para o banho, lavar as roupas. Não dexavam a gente sem atividade. Tudo funcionava para que nos não tivessemos tempo de pensar, nos lamentar. Tudo estava organizado e o tempo muito precioso.

Permaneci no lugar seis meses. Aprendiamos sobre religião,"Tanach", Judaismo. Tinhamos um baracão que servia de sinagoga e na cozinha nossa comida "kasher". Nós nos reuniamos e o nosso ideal era ir a Ëretz Israel. Todo campo estava cercado por arame e vigiados por ingleses em torres de vigia, de cima. Fazíamos grupo de teatro, coral. E foi o bom aos jovens. Os mais velhos não tinhm essas atividades e era uma vida monotona, difícil e os velhos ficavam com amargura.

Eu ficava também amargurada, eu me trancava e chorava. Não tinhamos rádio, mas a notícia do Exodus chegou depressa. Foi organizado um ato de solidariedade que coincidiu com "Tisha be Av", dia de destruição dos dois templos e outros infortúnios do povo judeu. Esse ato me penetrou fundo nas nossas almas. Ficamos sentados no chão, naquele recinto enorme na escuridão, iluminado por algumas tochas. E, cantavamos os salmos do "Tanach",lamentos do Jeremias, Depois da captura do navio, me lembro que os ingleses fizeram um ato de boa vontade e deram quinhentos cerfificados de vistos de entrada para as crianças até quinze anos. E entre essas crianças ate quinze anos, eu fui a única do nosso grupo que foi contemplada com o certificado. Eu fui levada para "Eretz Israel". Imagine essa felicidade de um lado e a tristeza de me separar dos meus amigos. Essa era a nossa família! Um sentimento que me persegue durante minha vida é que não acho que tenho o direito de ter coisas. Quando cheguei a "Eretz Israel", meus tios me acolheram maravilhosamente bem! Me proporcionarom um lar. Todos os jovens que chegavam, iam para "Aliat Ha Noar". verdadeiros lares, onde proporcionarom todo o conforto, na medida do possível. Minha família foi maravilhosa! Eram maravilhosos, sionistas e corespondiam ao meu idealismo. Não eram religiosos, mas me proporcionarom ser religiosa, guardar o "Shabat". A minha tia preparava comida na sexta-feira.    

Recuperei um pouco que eu tinha perdido. Toda a família se ocupou comigo! Eu entrei no ginásio  em Tel Aviv, junto com alunos da minha idade!  Meus conhecimentos não eram suficientes para aquele ano de escola. Não tinha conhecimentos da língua hebraica e das materias Eu estudei e meus tios proporcionaram uma professora particular que me ajudava. Fiz amizade com uma moça da minha classe. E graças a ela, consegui superar essas dificuldades na escola. Ela morava perto e ela só almoçava na casa dela e vinha pra minha casa e nós, as duas, ficávamos estudando. Depois, tomei o ritmo normal dos estudos e fui galgando posição na classe.

Detestava inglês, pois me lembrava o que fizeram conosco em Chipre. Superei as dificuldades e, com a ajuda da Zípora. Depois do sexto ano colegial, resolvi aprender uma profissão. A vida era muito dificil durante a Guerra da Independência. Não queria sobrecarregar meus tios com meus estudos e minha vida na cidade. Prestei exame para a escola de Bailinson de Enfermagem e fui aceita. Estudei dois anos e minha tia Ana no Brasil não sossegava. Ela queria eu fosse ao Brasil. Queriam me conhecer e se prontificaram de me mandar passagens e me mandar de volta a Israel, na hora que quisesse. Aconteceu que estávamos em um grupo de amigos no hospital e contei sobre minha família no Brasil e depois da primeira Macabíada em Israel, mencionarom o Brasil.  E, meus amigos acharam que deveria aproveitar a oportunidade de viajar num navio bonito, um transatlântico, conhecer o mundo e ver a família! "Agora, enquanto você esta estudando, você só perde alguns meses de estudos. Depois fica difícil. Fui para casa de meus tios decidi vir ao Brasil e conhecer minha família. Meus tios ficaram felizes e logo vieram as cartas, arranjar a documentação e depois de alguns meses  embarquei no navio, onde encontrei um grupinho de jovens. Encontrei um rapaz que ia de volta para o Peru. Ele se alistara, voluntariamente, para lutar na Guerra da Independencia de Israel. Com ele estava um senhor que também ia encontrar a família no Peru. Quando chegamos em Gênova, os dois vieram comigo para eh. Eu, como eu viajava de primera classe. Ele se chamava Henrique Blau e falava espanhol. Na Itália fiquei com eles numa hospedaria de imigrantes. Nessa hospedaria, cheia de árabes, cheio de  gente. No mesmo dia fui procurar meu visto no Consulado. Ninguem sabia de nada!

Comecei a chorar: "Que que eu vou fazer sozinha?!" O consul teve a ideia de mandar um telegrama a minha família. Tinha o endereço de uma família amiga. Era irmão de Leoni Barrocas, o tio de Ettore Barrocas. Gente maravilhosa! Me acolheram em Gênova. Eles me emprestaram dez dólares para mandar o telegrama. Íamos, diariamente no Consulado pra ver se o meu visto tinha chegado. Depois de uma semana, mandei outro telegrama, desesperada! Porque eles iam embarcar ao Peru antes! Uns dias antes. Eu ia ficar sozinha. Eu chorava tanto! Eu estava tão deseperada que eu num sabia o que fazer com a minha vida e pensava:"Que que eu fui meter numa enroscada dessas?!"

No último dia, antes de fechar o Consulado, eles me concederam o visto. Eu estava sozinha. Mas, por sorte, dois árabes do hotel, libaneses. Eram pessoas cultas, falavam inglês, um pouco de espanhol, Dois senhores começaram a se ocupar comigo! Viram meu desespero me acompanharam ao Consulado. No dia seguinte, na sexta-fera, o navio ia zarpar. No dia primero de junho de 1951 sai da Italia para o Brasil. O consul me recebeu e disse que o visto tinha chegado. E, imediatamente, providenciaram o exame médico, tiraram fotografia e respirei aliviada e, no dia seguinte, embarquei. A família Barrocas me acompanharam ao navio, se despediram de mim e embarquei no navio Paulo Toscanelli, de primera classe. Eu era, realmente, a mascote de todos os passageiros do navio. Todos eles muito bem vestidos, muito bem trajados! Quem viajava naquela época era a elite.Todo mundo queria saber de onde eu vinha; para onde eu estava indo e de repente, eu comecei a me comunicar com todos em inglês. Foram dias, maravilhosos e quando cheguei ao Brasil, minha família inteirinha me aguardava em Santos. Meus tios eram Ana e Baby Firer; Ethel e Isaac Oksman; Aron e Fira Geier. Geier é a família de solteira da minha mãe. Era o irmão da minha mãe. Moshe Brik era irmão do meu pai.

Eu morei na casa da família Snajder, eram tios e primos. Na época já eram os primos do meu pai. Antes da Guerra se estabeleceram em Israel. Eles venderam todas propriedades que tinham na Europa e foram a Israel, Tel Aviv. Era uma família muito unida, de sionistas maravilhosos. Minha tia Manja, era a filha mais velha, Manja e Chaim Askenazi. Meu tio, veio da Rússia e se casaram em Israel, em segundas núpcias. Meu visto dava direito a voltar a Israel. Meus tios moravam em Ourinhos. Comecei a estranhar, porque não falava a língua. Fiquei com meus tios e ficava na loja. Procurava ser útil, dobrava mercadorias e lia livros, ouvia música. Vi que não tinha futuro naquilo. Quando minha tia vinha a São Paulo, me levava junto. Vi meus primos que estudavam em São Paulo, nas  universidades. Meus primos me levavam para conhecer a cidade, aos bailes.  Estranhava os jovens,  eu os achava fúteis, sem objetivos! Os jovens israelenses viveram anos da Guerra, ajudávamos, nos prontificamos voluntariamente. Passei por um curso de defesa. A gente angariava roupas, utensílios e cobertores para os novos imigrantes que chegavam. Israel vivia anos de trabalho, de sacrifício, de idealismo e eu participara disso! Eu tinha um objetivo na vida e não era vestir roupas bonitas e dançar nos bailes! A minha tia queria me cobrir de tudo que era bonito! Sapatos altos, furar as orelhas para por brincos de brilhante!

Eu relutava por tudo. eu era impossível nesse ponto de vista. Até que um dia meu tio se sentou e me disse. Eu só falava de Israel. Tudo que mostravam não me agradava. Minha tia Manja, realmente, era uma "lady", educação esmerada! Eu convivi com pessoas que frequentavam concertos, óperas. Eu vivi naquele apertamentinho com pessoas que não tinham nada! Mas, uma vida israelense, como estava acostumada.

Não importava se eu usasse um trapinho de roupa! Mas, era alguem.. E aqui, de repente, não era ninguem! Mal podia me comunicar. Nossos jovens aqui, não se interessavam muito por Israel, por Judaismo ou Holocausto?! Eu era uma menina que chegou do Holocausto, a menina triste, menina amargurada. Ninguem se dava comigo. Francamente. Eu num tinha amigos brasileros. Vivi cada vez mais amargurada, então, resolvi ir embora. Eu queria embora! Queria continuar meus estudos,  trabalhar no hospital.. era a minha vida. E resolvi ir a São Paulo na Avenida Ipiranga na Organizacão Sionista para me informar como é que eu tinha que fazer para voltar a Israel. Mandaram-me falar com um senhor que falava hebraico, um "sheliach". Nachum Kurnas  Ele disse: "Você tem, sim, o que fazer aqui. Nos precisamos abrir escolas. Nos precisamos conscientizar a juventude brasilera sobre Judaismo e não temos professores. Estamos providenciando trazer professores de Israel para ensinar o hebraico, Historia Judaica e você pode, muito bem ajudar. Cada professor custa para trazer. Você já esta aqui. Não custa nada começar trabalhar, ensinar hebraico." Disse que não era professora, nunca lecionei. E me disse que começando eu entraria no ritmo. Eu pensei: não custa nada experimentar! agrado a minha tia. Tinha um apartamento em São Paulo, onde meus primos moravam. E num custa nada morar aqui e trabalhar. Vou me sentir util. Logo me confiaram uma classe de alunos adolescentes na escola de Cambuci. Na sinagoga de Cambuci e comecei a lecionar. Eram cursos noturnos de hebraico e eu estava me entrosando com os jovens. Eles aprendiam hebraico comigo e eu aprendia português com eles. Quando a minha tia chegou do interior e viu que eu voltava de noite, sozinha, de bonde, começou a lamúria de novo. Ela zelava muito pelo meu bem-estar. Era maravilhosa a minha tia! "Que que vão dizer? Eu trouxe uma sobrinha e 'estou a mandando trabalhar?" Mas, logo chegarom professores de Israel, moças jovens de Israel. Um casal de instrutores. E, com essas moças, com esses professores que falavam hebraico, e tinham os mesmos interesses. Entre essas professoras, veio uma moça que era minha colega de ginásio. O pai dela era o diretor do ginásio. Ela era mais mais adiantada na escola. Mas, não tínhamos afinidade era a Yaffa el Hanani...

Ela fundou um curso de professoras de jardim de infância,  para ensinar métodos modernos israelenses. Como o curso era em hebraico, a Yaffa...a Yaffa transmitia em hebraico e aprendia, assimilava muito mais depressa o que a Yaffa ensinava. Primeiro, porque eu já tinha aquela vivência israelense e eu estava mais acostumada àquilo que ela transmitia aqui. Eu sei que terminamos o curso, passamos por uma banca examinadora, fizeram aquele...a coisa assim e a Yaffa tinha formado aqui o primero jardim de infância moderno, estilo israelense no Bom Retiro. Nesse jardim, tivemos as aulas teoricas e, também, de manhã, trabalhávamos naquele jardim para por a nossa aprendizagem em pratica naquele jardim. E foi uma vivência muito boa. Eu comecei me entrosar muito bem nesta vida aqui. Já não me importavom a os jovens, a sociedade daqui. Eu tinha o a minha rodinha de gente e já estava indo bem. Depois, quando nos formamos, ela eh, me...eu fui trabalhar numa classe no Brás, na escola Luis Fleitlich e junto comigo, por coincidência, trabalhava a Fanny Barrocas.

E eu trabalhei com a Fanny, então, na escola Luis Fleitlich. No ano seguinte, eles me propuseram fundar uma escola em Santo André. Foi...foi resolvido abrir uma escola em Santo André, onde já havia bastante famílias judaicas e para as crianças daquelas famílias judaicas que estavam completamente afastadas do Judaismo. Nós sabemos como aquela geração de judeus que vieram da Europa se dedicaram completamente ao trabalho e esqueceram o Judaísmo e não transmitiram para filhos. Faz uma falta tremenda, essa geração de jovens que nom receberam Judaísmo, não receberam essa educação e não tem o que transmitir para os filhos. Por isso essa lacuna aqui no Brasil. Eu sei que eu comecei a preparar aulas eu prepararei esta casa para o funcionamento. O pessoal de lá, a coletividade de Santo André, naquela época, foi maravilhosa! As pessoas começaram se interessar muito pela escola. Começaram e não significava nada difícil para eles se fosse para a escola. O doutor Moyses Fuchs, foi o presidente, formamos um "Mutterrat", um grupo de senhoras que também se ocuparam com a escola e, com o tempo, a escola tornou-se o centro...o centro comunitario de toda a população judaica em Santo André. Era...as crianças...eu trabalhava os dois periodos e nos comecamos com jardim de infância, com o propósito de formar uma escola...um futuro primario. O jardim era o jardim-modelo de todas escolas judaicas, na época, em São Paulo. Porque eu introduzi todos os métodos que eu aprendi, os modernos, israelenses. A escola tinha uma estrutura, também, para poder por em prática tudo aquilo que eu queria por. Eu tinha os meios. A casa era grande. Os aposentos eram arejados, ensolarados. Os jardim me permitia fazer horta e criar bichinhos que as crianças podiam se desenvolver. Embora, atualmente, todas as escolas já introduziram esses métodos. Mas, na época, a minha escola era a primera para fazer tudo isso. Porque, no Luis Fleitlich, nos tínhamos uma salinha pequena onde as crianças estavam sentadas nos bancos, como se fosse primario. Lá, eu desenvolvia projetos com as crianças. E as crianças aprendiam atraves dos brinquedos, através desses projetos. Eu me lembro, uma vez, fiz um projeto de um hospital! E as crianças eram os médicos e as enfermeras e os doentes e tudo!

E eu ficava lá o tempo todo na escola, costurando roupas pras bonecas e preparando. Se eu tinha um projeto pra executar, eu tinha que preparar os lenços pras enfermeiras ...E as crianças aprendiam, sabe, a viver através dos brinquedos e dos jogos. E, realmente, foi...E eu me dedicava. Num tinha outra coisa pra fazer na vida, só me dedicava à escola. E eles todos reconheciom e...essa minha dedicaçom essa mi...eh, os metodos que eu introduzi e cada um procurava ajudar. As Festas Judaicas eram comemoradas com maior, sabe, beleza! Tudo que eu aprendi, tudo que eu fui, sabe, que eu tinha de Judaísmo, eu transmiti a eles. E a escola tornou-se um centro às crianças e famílias que começaram a ir à escola assistir as festas. O "Cabalt Shabat" no começo elas vinham acanhadinhas, atraz da porta, olhando.  Depois, começavam a vir. E tudo que as crianças aprendiam na escola, levavom para casa o Judaísmo e o Sionismo.

Santo André inteirinha tornou-se a minha família.

Eu morava no apartamento que minha tia mantinha aqui, em São Paulo...Eles queriom retribuir aquele amor e atenção que dava a eles. E foram anos. Quando vou a Hebraica, encontro alguem que me abraça:  "Morah" Miriam!"

Eu viajava no trem das sete horas e eles também viajavam no trem das sete horas ao Bras. Meu marido também é sobrevivente e eu comecei a contar a minha vida, ele começou a vida dele.

E eu fui no cinema, tomamos um táxi e voltamos pro Bom Retiro, onde nós dois morávamos. Quando nos já estavamos namorando firme e  quis casar. Casamos na sinagoga Talmud Torah e acabei trabalhando na escola Bialik..

Minha mensagem é lembrar sempre e transmitir para os filhos e para os netos, a nossa tragédia do Holocausto, para que a trágica morte dos seis milhões num seja esquecida e não seja omitida. Acreditar em D'us, apoiar o Estado de Israel. Que o Estado de Israel que é a nossa fortaleza. Estado de Israel deu orgulho para todas os judeus, onde quer que se encontrem. Tanto no Brasil, em qualquer outro lugar. Nos vivemos aqui, procuramos ser cidadões exemplares para o Brasil. O Brasil merece porque o Brasil nos acolheu e, aqui, nos vivemos uma vida livre, sem antissemitismo e sem sofrimento. Cada um, na medida do possível, se realizou. E realizou-se em todos os sentidos. Nós amamos esse país. Nos nós tornamos cidadãos por opcão.

Depois que nós fomos a Ucrânia, minha cidade natal em 93 me propus a escrever e relatar toda essa minha vivência.

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ABRAHAM, Ben