Bibliografia

Arte no exílio: pintor nascido na Romênia, Emeric Marcier elegeu o Brasil como pátria e fonte de inspiração

ARQSHOAH

RG:
BBG/453

Tipologia:
Artigo

Sobrenome:
BAPTISTA

Nome:
Anna Paola Pacheco

Data:
23-04-2008

Site:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/arte-no-exilio

Artigo:

Na bagagem, uma pasta de desenhos e três cartas de apresentação dadas pelo escritor português José Osório de Oliveira (1900-1964) e endereçadas a figuras proeminentes da vida cultural brasileira. Na lembrança, imagens de uma Europa marcada pela guerra e a angústia do exílio em um país desconhecido, que se tornaria sua pátria eletiva e influenciaria a essência de sua arte.

Na década de 1940, devido ao segundo conflito mundial no continente europeu, o Brasil recebeu um contingente expressivo de exilados que desempenharam um importante papel na efervescência cultural de um país em processo de modernização.  Um deles foi o pintor Emeric Marcier (1916-1990), aportado no Rio de Janeiro em 1940. A chegada ao país resultou em um processo de modificação de sua identidade, com a condição de judeu romeno sendo eliminada em prol da de católico brasileiro, a partir de sua conversão, pouco tempo depois, e sua naturalização, na década de 1950. Fatores que iriam influenciar sua produção artística.

Apesar de muito moço, ao ser resgatado da Europa convulsionada, Marcier já havia acumulado uma considerável experiência profissional e vivência trágica. Com menos de 20 anos trocou seu nome, a fim de esconder suas origens judaicas e escapar das perseguições nazistas. Peregrinou por seu país e seguiu para os grandes centros da Itália e depois para Paris, capital da arte. Antes de alcançar seu destino final, o Brasil, passou uma temporada em Lisboa, junto a tantos outros, judeus ou não, que tinham a esperança de obter um passaporte para escapar da guerra.
Durante a viagem de navio, à medida que o calor se tornava mais intenso e o azul do céu passava a cegar, a guerra ficava emocionalmente mais distante. Na chegada ao Rio de Janeiro, Marcier foi brindado com a beleza inesquecível da Baía de Guanabara e suas praias.

Em solitários passeios a pé, procurava conhecer a cidade que o acolhia. A falta de galerias e museus trazia o isolamento e a inquietação. O circuito de arte ainda era incipiente. Nas instituições artísticas dominava o academicismo, e os espaços de exposição para os pintores não-acadêmicos eram poucos e inadequados, destacando-se o Palace Hotel, no Centro. As escassas galerias eram basicamente lojas dedicadas a atividades como molduraria, antiquário ou comércio de material artístico.

O jovem pintor estrangeiro sentia necessidade de participar do círculo social da época, de estabelecer vínculos pessoais e profissionais. Isso se tornou possível a partir da utilização das cartas de recomendação que havia trazido. Neste sentido, a entrevista com José Lins do Rego (1901-1957) revelou-se uma influência decisiva em seu futuro.

A Editora José Olympio, na Rua do Ouvidor, onde trabalhava o escritor, era ponto de encontro dos grandes literatos, jornalistas e intelectuais da época. Lá, José Lins recebeu Marcier de braços abertos. A amizade fluiu franca desde o início, e ele passou a apresentar Marcier aos integrantes de sua rede de relacionamentos, como os escritores católicos Jorge de Lima (1893-1953), Murilo Mendes (1901-1975) e Lucio Cardoso (1913-1968).

Foram estes e outros novos amigos que lhe abriram as portas para as realizações profissionais que logo se seguiriam: a primeira exposição individual no Palace Hotel, ainda em 1940, as exposições no Museu Nacional de Belas Artes em 1942 e no IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil) em 1944, todas com repercussão favorável da crítica e a venda de alguns poucos trabalhos.

No entanto, o pintor lutava com grandes dificuldades financeiras. Por isso, amigos intermediaram um contrato para a realização de uma reportagem especial na revista O Cruzeiro sobre as cidades históricas de Minas Gerais, publicada em 1942. A encomenda feita a Marcier compreendia as viagens de trem, com paradas nas cidades para o registro em pintura das imagens que seriam publicadas na revista. Reveladora de uma arte genuinamente brasileira, sobretudo da paisagem brasileira, a viagem foi a descoberta de um Brasil novo ao seu olhar e decisiva para seus futuros caminhos.

No Rio, convivendo com literatos, Marcier se aproximou do ambiente católico tradicional. Às vezes ele acompanhava Jorge de Lima e Murilo Mendes à missa no Mosteiro de São Bento, um espetáculo que o seduzia, e, por outro lado, o repelia por sua grandiosidade. Em Lucio Cardoso, seu futuro padrinho de batismo, Marcier reconhecia algumas de suas próprias tormentas interiores, um sentido trágico que vinha ao encontro de sua própria experiência e sua sensibilidade. Sentiu-se, então, atraído pelo catolicismo.

Uma repentina conversão religiosa em 1942 marcou profundamente sua vida e influenciou definitivamente sua arte. O episódio é descrito pelo pintor em suas memórias como um momento de total abandono na noite da praia de Icaraí cortado pela visita de Deus, com quem firma um pacto de renúncia e devotamento. O batismo formalizaria o sepultamento do velho homem e o nascimento de um novo.

No caso de Marcier, vida e obra permanecem fortemente enlaçadas, e é difícil avaliar se o assunto religioso veio a reboque de sua conversão ao catolicismo ou se sua própria conversão teria sido estimulada pela descoberta daquela temática. O certo é que ele se identificou tanto com os motivos religiosos a ponto de vir a ser considerado o mais expressivo pintor moderno sacro no Brasil. Entre suas obras murais em técnica de afresco destacam-se as capelas Cristo-Rei, da Juventude Operária Católica em Mauá, São Paulo, e a Santa Maria, em Petrópolis, Rio de Janeiro. Na pintura de cavalete, trabalhou obsessivamente no tema da via-sacra por mais de quarenta anos.

Além da temática sacra, notabilizou-se também como pintor de paisagem, o que lhe valeu a alcunha de “redescobridor do Brasil autêntico”, dada pelo crítico do Diário de Notícias, Rubem Navarra. Nessa época, passou a residir em Santa Teresa, de onde desfrutava uma excelente vista da paisagem carioca.

A comunidade artística de Santa Teresa, nesse período, não parava de crescer. A ocupação de Paris pelos alemães provocava a chegada de mais gente, fazendo da época uma das fases mais férteis da cultura no Rio de Janeiro. Marcier teve a oportunidade de apresentar o Brasil a alguns de seus velhos conhecidos europeus, os pintores Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), portuguesa, e o marido dela, o húngaro Arpad Szenes (1897-1985), também estabelecidos em Santa Teresa.
 
Os indícios da proximidade do fim da guerra surpreenderam Marcier num momento em que ele começava a diferenciar-se dos outros, que aguardavam ansiosamente a volta para a Europa. Já casado com uma brasileira e pai de família, não sentia necessidade de alcançar este destino. E assim, em vez de ir para a França, viajou em 1946 para São Paulo, a fim de realizar sua primeira grande obra mural sacra, a Capela Mauá, e de lá para Barbacena, em Minas Gerais, onde comprou o Sítio Santana, seu refúgio por mais de uma década.

Terminada a guerra e podendo encerrar o seu desterro, o artista decidiu não retornar à Europa. O exílio transformou-se em pátria e a condição de romeno foi substituída pela de brasileiro, por meio da naturalização conseguida nos anos 1950.

Marcier construiu um exílio dentro da terra de exílio, afastando-se quase totalmente da sociedade artística e cultural. Foi nesse isolamento que criou uma importante parcela de seus murais sacros que engloba, além das paredes da própria residência, a decoração de capelas, hospitais e ordens religiosas.

Durante a década de 1950, sentindo-se seguro com a identidade de brasileiro católico, retornou à Europa. O choque do reencontro com a ebulição do meio artístico europeu fez ressurgir nele a necessidade de romper o isolamento quando voltou ao Brasil. Buscando uma reintegração profissional no Rio de Janeiro, Marcier empreende, já nos anos 1960, uma nova tentativa de firmar elos com o circuito das artes e monta um ateliê no Leblon.

O panorama do retorno era de uma cidade transformada. Apesar de o Rio de Janeiro não ser mais a capital do país, o mercado de arte havia crescido na cena carioca. Marcier viu surgirem as primeiras galerias estabelecidas em moldes europeus, como a Petite Galerie (na Avenida Atlântica, em Copacabana, e depois em Ipanema), com a qual manteve um contrato de vinculação exclusiva por algum tempo, e também a Bonino e a Relevo, ambas em Copacabana.

O pintor viu o rumo de sua atividade artística se transformar. Enquanto diminuíam as encomendas de afrescos, aumentava o número de exposições, cujo sucesso de crítica alavancava as vendas. A cotação de suas obras atingia valores mais altos e seus quadros ingressam em importantes coleções particulares.

Perto dos 50 anos, Marcier recebe homenagens, como a Ordem da Inconfidência e o título de cidadão honorário de Barbacena, e tem uma exposição retrospectiva apresentada em Bucareste, na Romênia, com o patrocínio do governo brasileiro. Porém, apesar de seu entrosamento na vida do Rio, as mudanças acarretadas pelo endurecimento do regime militar e certos problemas pessoais iriam afastá-lo mais uma vez da cidade na qual ele ficaria por um longo período (1969-1980) sem realizar exposição individual. Na década de 1970, Paris e o ateliê de Montparnasse representaram o local de exílio. Lá ocorreu também o desenvolvimento de uma temática, o nu, que caracterizou a fase de sua obra que o artista chamou de “antimineira”, ou essencialmente erótica.

Na última década de sua vida, dividindo-se entre Barbacena e o Rio de Janeiro, Marcier pôde ainda vivenciar uma dose de sucesso, com uma série de exposições em galerias no Brasil e no exterior e a publicação de extratos críticos sobre sua obra.
Colecionador de exílios, o pintor sentiu-se sempre um deportado. O primeiro expatriamento, imposto pela guerra, tornou-se voluntário na opção de permanecer no Brasil. Certo isolamento artístico, entretanto, nunca foi plenamente vencido, mesmo nos outros momentos em que se estabeleceu no Rio de Janeiro, e a despeito do sucesso alcançado na carreira. Deixou-se contaminar pela luz e pelas formas do país adotado, mas não pelos artistas locais. Sua obra se desenvolveu sem parentesco, sem modismo, sem pupilos. Tendo como elemento de constância apenas a condição de pintor, Marcier seguiu reinventando sua identidade de variadas maneiras, moldando-se ao fluxo da vida na sociedade que o acolheu.

ANNA PAOLA PACHECO BAPTISTA é coordenadora de Comunicação Social dos Museus Castro Maya/Museu da Chácara do Céu e autora da tese “Do Eterno ao Moderno: arte sacra no Brasil, anos 1940-50” (UFRJ, 2002).


Saiba Mais - Bibliografia:

CAVALCANTI, Lauro (org.) Quando o Brasil era moderno: Artes Plásticas no Rio de Janeiro 1905-1960. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.

MARCIER, Emeric. Deportado para a vida. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2004.

SANT’ANNA, Affonso Romano. Estória dos sofrimentos, morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo na pintura de Emeric Marcier. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983.