Bibliografia

"Os 'Tefilin' de Buchenwald". Revista Morashá. ano XIV. nº 58. 2007.

ARQSHOAH

RG:
BBG/109

Tipologia:
Artigo

Cidade:
Sao Paulo

Editora:
Instituto Morasha de cultura

Data:
09/2007

Páginas:
68 - 70

Site:
www.morasha.com.br; www.morasha.com

Palavras-chave:

Budapeste; campo de concentracao Buchenwald; campo de prisioneiros; Holocausto; Hungria; Nazismo; Nelipeno; Raoul Wallenberg; Shmuel Stern; Shoah; tefilin

Artigo:

 

HOLOCAUSTO
  Os "Tefilin" de Buchenwald 

Eram os últimos dias de dezembro de 1944. Shmuel Stern olhou para fora  de uma das janelas da cozinha do campo de concentração de Buchenwald.  Pedira para trabalhar nesse local na esperança de, talvez, encontrar  uma casca de batata a mais para comer. 

O que o fez sair da cozinha naquela hora, apesar do inverno rigoroso,  foi um odor estranho e a visão de uma fumaça preta subindo em direção  ao céu. Fumaça, em Buchenwald, era algo raro por não ser um campo de  extermínio, onde os prisioneiros eram assassinados em câmaras de gás  e, a seguir, queimados em fornos crematórios. Buchenwald era um campo  de trabalho onde os prisioneiros, principalmente os judeus, morriam  vitimados por maus-tratos, sede, fome e frio. 

Após ter aberto a porta da cozinha, um ar frio penetrou em seus ossos,  mas o que Stern viu perturbou-o tão profundamente que ele não conseguia  nem se mexer para se esquentar. As labaredas de um fogo intenso estavam  devorando uma enorme pilha de livros de reza em hebraico, assim como  talitim e tefilin. Estes últimos são os filactérios usados pelos judeus  nas orações da manhã, compostos por duas caixinhas de couro, cada qual  presa a uma tira, dentro das quais há um pergaminho com trechos da Torá. 

Enquanto Stern observava as longas tiras de couro que ardiam no fogo,  recordou-se de que quando chegou a Buchenwald tinham-no obrigado, a  entregar seus tefilin. Quem sabe, pensou, se os seus não estariam queimando  naquela pilha, bem ali diante de seus olhos. Esta era uma das "técnicas"  nazistas: obrigar aqueles que chegavam ao campo a entregar seus pertences  pessoais, incluindo artigos religiosos. Era um dos primeiros passos  no processo de desumanização nazista, no pseudo-mundo do campo de concentração,  onde as únicas constantes eram dor, fome e medo. 

Enquanto conteplava o fogo, absorto, Stern viu uma única caixa de tefilin  que ainda não pegara fogo. Olhou à sua volta para ter certeza de que  ninguém o vigiava e que não havia nenhum guarda ou kapo por perto e,  rapidamente, pegou a caixa e a escondeu. Naquela noite, guardou a caixa  debaixo do seu colchão e decidiu que iria usar um único tefilin nas  preces matinais, naquele dia. Algo, porém, o preocupava: seria permitido  usar um único tefilin? O mandamento bíblico diz claro: "E os atarás  como sinal na tua mão e serão por filactérios entre teus olhos" (Deuteronômio  6:8). Mas, como poderia ele, o "prisioneiro número 27.613" do campo  de concentração de Buchenwald, achar o segundo tefilin? Assim como outros  prisioneiros, Stern passava os dias unicamente tentando sobreviver um  dia mais.

Para Stern, judeu praticante, era muito importante usar os tefilin.  Crescera com três irmãos e quatro irmãs na pequena cidade de Nelipeno,  então Checoslováquia. Diariamente, antes de ir para a escola pública,  estudava por duas horas no cheder, com os irmãos. Assim que terminavam  as aulas, ele voltava para o cheder para as orações da tarde, retomando  os estudos de Torá.

Já adolescente, Stern continuou a estudar no Ginásio Hebraico, em Munkacs,  onde todas as aulas eram dadas em hebraico, de modo a preparar os alunos  para emigrar para a então Palestina. Na época, Stern não sabia, ao certo,  se queria fazer aliá. Muitos jovens das cidades maiores já haviam partido  para a Rússia, outros para a América, tentando fugir dos nazistas, cada  vez mais próximos. Mas, quando a guerra chegou a Nelipeno, Stern não  conseguiu mais deixar a cidade.

Naquela noite, enquanto estava deitado no colchão esfarrapado, em Buchenwald,  Stern ainda conseguia lembrar dos detalhes de sua vida em casa dos pais.  Lembrou-se do aroma da chalá, que a mãe preparava semanalmente para  o Shabat; o delicioso cheiro do tscholent, o tradicional prato à base  de feijão e batata, que a mãe mantinha quente na chapa do Shabat, na  pequena mercearia da família. Lembrou, também, da sinagoga de sua cidade,  em Yom Kipur, lotada de fiéis que oravam, das velas acesas nas laterais  do prédio, cada uma colocada em uma abóbora com areia pela metade, para  que não vazasse, e do som do shofar.

Stern tinha 18 anos quando foi convocado para uma unidade húngara de  trabalhos forçados. Era o último dia de Pessach de 1943. Desde 1940,  o governo húngaro havia implantado trabalho forçado para todos os judeus  do sexo masculino que, organizados em batalhões, eram destacados para  projetos de construção. Conseguira convencer as autoridades de que era  eletricista por profissão, passando a trabalhar nessa função em várias  fábricas ao redor de Budapeste, até outubro de 1944. Após a ocupação  alemã, em março daquele ano, a Hungria entra em fase de intensa cooperação  com o esforço de guerra nazista e com a política de deportação de judeus,  levando o triste recorde de ter sido a mais rápida das grandes operações  de assassinato, durante o Holocausto. 

 

Naquele outubro, sabendo que os nazistas estavam prestes a prender  todos os judeus, mesmo os que trabalhavam, Stern consegue fugir com  um amigo para Budapeste. Eles tinham ouvido dizer que Raoul Wallenberg,  o jovem diplomata sueco, e outros diplomatas de países neutros estavam  emitindo passaportes para impedir a morte de milhares de judeus. Wallenberg  instalara hospitais, berçários, cozinhas coletivas e "casas seguras"  através de Budapeste para ajudá-los. 

Como esses lugares eram mantidos pelas autoridades consulares suecas,  eram considerados território desse país e, portanto, neutros. 

Embora Stern não tenha conseguido um passaporte, localizou uma "casa  segura" na qual ficou por dois meses. Acabou sendo preso quando os fascistas  húngaros a serviço dos nazistas, alegando estar à procura de voluntários,  conseguiram fazer os refugiados saírem da casa e os prenderam. Com outras  94 pessoas, foi colocado e trancado em um vagão de trem, como gado.  Depois de uma terrível viagem que durou 18 dias, chegaram a Buchenwald. 

Agora, um dia depois de ter achado aquela preciosa caixa de tefilin,  Stern não tinha esperança de encontrar uma segunda. Desolado, foi a  pé até a fábrica de munições de Magdeburg, um dos sub-campos de Buchenwald,  onde trabalhava como eletricista na produção de munição. Terminado seu  turno, enquanto retornava para o campo com outros prisioneiros, Stern  viu um de seus companheiros segurar um objeto que lhe pareceu ser um  tefilin. Mais extraordinário ainda era que com a parte agora encontrada  ele teria um par completo - uma caixa para o coração e outra para a  cabeça. Como o prisioneiro era um cigano, Stern conseguiu trocar a segunda  caixa de tefilin por um suéter, o único que possuía.

Na manhã seguinte e em todas as manhãs, a partir daquele dia, Stern  colocava os tefilin nas preces matinais. Em seguida, emprestava-o para  outros prisioneiros. Guardava-os sempre consigo e, ao ser transferido  para outra fábrica, em Polta, outro dos sub-campos de Buchenwald, levou-os  consigo.

A guerra estava em seus últimos dias quando Stern e alguns amigos conseguiram  fugir da fábrica. Esconderam-se em um porão, durante sete dias, e só  saíram quando o exército norte-americano se aproximou. Era abril de  1945. 

Depois da guerra, Stern foi para a Bélgica, onde ficou até se restabelecer.  Em 1946, seguiu para os Estados Unidos, onde se encontraria com uma  irmã e um irmão, únicos sobreviventes da família. Instalou-se em Nova  York e reconstruiu sua vida, casando-se e constituindo família. No entanto,  jamais se desfez dos tefilin de Buchenwald. Tampouco permitiu que fossem  consertados, pois queria que permanecessem exatamente como quando os  encontrou, em meio ao fogo que consumia os objetos mais sagrados de  nosso culto e de nosso povo. 

Shmuel Stern, hoje Stanley Stern, usou os mesmos tefilin durante muitos  anos, exibindo-os nas palestras sobre a Shoá que dava para crianças  das escolas nova-iorquinas.

Traduzido e adaptado da crônica "Stanley Stern" publicada no  livro "To Life - 36 Stories of Memory and Hope", Museum of Jewish Heritage  - a Living Memorial to the Holocaust 

Fonte: Revista Morashá nº 58