Bibliografia

" Uma fraude centenária: Os Protocolos dos Sábios de Sião". Revista Morashá. Ano XVI. nº 64. 2009.

ARQSHOAH

RG:
BBG/81

Tipologia:
Artigo

Cidade:
Sao Paulo

Editora:
Instituto Morasha de cultura

Data:
04/2009

Páginas:
46-50

Site:
www.morasha.com.br; www.morasha.com

Palavras-chave:

Adolf Hitler; Alemanha; antissemitismo; Gustavo Barroso; Integralismo; Israel; judeu; Mein Kampf; Os Protocolos dos Sabios de Siao; raca; racismo; semita

Artigo:

 

 

ANTI-SEMITISMO 

Uma fraude centenária: Os Protocolos dos Sábios de Sião

Apesar de repetidamente desacreditado e de ter sua  falsificação comprovada, o livro Os Protocolos dos Sábios de Sião  se tornou o documento anti-semita mais lido, em todos os tempos.

A mais notória fraude política dos tempos modernos, "obra prima" da  literatura racista, tornou-se eficiente ferramenta para o anti-semitismo  moderno, desde sua criação pela polícia secreta do czar da Rússia, há  mais de 100 anos. O pequeno, mas diabólico panfleto, contém minutas  de um suposto conclave secreto de líderes mundiais judeus. Composto  de 24 capítulos ou protocolos, o livro "descreve" os "planos" traçados  na dita reunião, que, supostamente acontecia uma vez a cada 100 anos.  O objetivo de tais líderes judeus seria arquitetar a manipulação e o  controle do mundo que ocorreria no século seguinte. Acreditam seus seguidores  que Os Protocolos contêm a "prova cabal" da existência de uma "conspiração  judaica mundial" que teria como propósito "dominar o planeta". 

Sobre o texto, Elie Wiesel, Nobel da Paz, foi enfático ao declarar:  "Se há um texto que pode produzir o ódio massificado contra os judeus,  é este o texto... todo composto por mentiras e difamações". Ao longo  de sua nefasta trajetória, Os Protocolos foram usados para justificar  a perseguição de judeus na Rússia czarista e no período comunista e  continuam em uso, até hoje, pela extrema direita russa. Nas mãos de  Hitler, o texto se tornou verdadeira arma mortífera na guerra que travou  contra os judeus, a partir da década de 1920. Os Protocolos também fazem  parte do embasamento ideológico da extrema-direita americana e européia,  bem como da extrema-esquerda da Europa. E, desde 1921, vêm sendo usados  no mundo islâmico, sendo que hoje as cópias desta preciosidade anti-semita  são impressas e distribuídas gratuitamente. Adotado por todos os inimigos  do Estado de Israel, tornou-se a própria "bíblia" dos anti-sionistas. 

A pergunta que deixa perplexos estudiosos e leigos é de que maneira  um produto da Rússia czarista, oligárquica e cristã, conseguiu perdurar  até hoje e foi adotado entusiasticamente por pessoas das mais diferentes  ideologias e crenças religiosas? Uma das razões é o fato de, no texto,  não haver qualquer definição de tempo ou contexto nacional e ideológico,  podendo ser facilmente "adaptado" a qualquer situação. 

O texto dos Protocolos é sempre o mesmo, mas cada uma das milhares  de edições produzidas ao longo dos anos vem acompanhada de um prefácio  que "explica" como o "plano judaico" está em funcionamento naquele preciso  momento. As "idéias" contidas nos Protocolos constituem uma poderosa  arma em países ou grupos sociais onde prevalece uma situação de frustrações  ou incertezas. É sempre mais fácil acreditar que as dificuldades são  decorrentes de um "agente externo invencível" - uma conspiração judaica  mundial ou o imperialismo americano - do que encarar a realidade. Apesar  de outras obras anti-semitas poderem vir a ter maior "embasamento intelectual",  foram as imagens conspiratórias dos Protocolos o que conquistou pessoas  tão diferentes como o magnata dos automóveis, Henry Ford, membros da  Ku-Klux-Klan ou o atual presidente do Irã. O único elo entre os "seguidores"  do livro é seu ódio contra os judeus. 

Quase inacreditável também é o alcance geográfico de Os Protocolos,  que pode ser encontrado nos quatro cantos do mundo, até em lugares onde  praticamente não há judeus. Após a 2ª. Guerra Mundial, virou best-seller  não só em paises islâmicos, mas também no Japão. No Brasil, são inúmeras  as publicações. Com o advento da Internet, Os Protocolos passam a ter  uma divulgação jamais vista e, desde 1994, circulam livremente na rede  mundial versões completas em vários idiomas, sendo indicados como leitura  obrigatória em sites de grupos separatistas, nazistas, nacionalistas,  do Poder Branco, KKK e até mesmo do MV - Movimento de Valorização da  Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil. 

Denunciar os Protocolos como uma mentira deslavada não é novidade;  isto tem sido feito ao longo de quase um século, por profissionais idôneos  e muito respeitados. Por que, então, a necessidade de expor, mais uma  vez, essa fraude centenária? Lamentavelmente, com a proliferação do  anti-semitismo em diferentes partes do mundo, as "verdades" dos Protocolos  servem, uma vez mais, de alimento para fomentar sentimentos anti-judaicos.

O primeiro a denunciar o texto, ainda em 1920, logo após sua introdução  na Europa Ocidental pela mão de refugiados russos, foi o historiador  judeu britânico, Lucien Wolf. No ano seguinte, Philip Grave, jornalista  do The Times, denunciou em vários artigos como se forjara aquele embuste.  Centenas de outros artigos e livros e atualmente até documentários se  seguiram, sempre de respeitados autores, que, no entanto, fracassaram  em seu intento de convencer seus seguidores de que o panfleto nada mais  era de uma grande fraude.

Incontáveis são as vezes em que Os Protocolos foram derrotados nos  tribunais de vários países. Em 1933, a comunidade judaica da Austrália  e, no ano seguinte, da Suíça, moveram ações vitoriosas, para proibir  a distribuição do execrado livro. No ano de 1993, em Moscou, houve um  processo contra o grupo ultra-nacionalista russo, Pamyat, que alegava  ser o texto historicamente legítimo. No Brasil, federações judaicas  denunciaram o panfleto e houve sentenças favoráveis pronunciadas nos  tribunais estaduais de praticamente todas as cidades onde surgiram seus  exemplares, sendo confiscados os estoques dos livros.

Raízes "ideológicas"

As acusações contidas nos Protocolos dos Sábios de Sião não são totalmente  novas. Algumas, como o mito de reuniões secretas de rabinos para arquitetar  planos para subjugar cristãos, fazem parte da literatura medieval cristã  anti-semita. Mas, uma fonte de inspiração mais moderna remonta à época  da Revolução Francesa, quando, em 1797, o abade Barruel, defensor do  Antigo Regime, publicou um trabalho em que afirmava que os revolucionários  franceses faziam parte de uma conspiração secreta maçônica, cujo objetivo  era tomar o poder. Alegação totalmente sem sentido, pois era a nobreza  francesa quem estava profundamente envolvida com a instituição maçônica.  No documento inicial, o abade não faz acusação aos judeus, mas, em 1806,  ele "enriquece" sua teoria conspirativa lançando e distribuindo uma  carta forjada, na qual os judeus eram acusados de fazer parte da conspiração  que o autor, anteriormente, atribuíra aos maçons. 

No entanto, o antecessor direto dos Protocolos foi uma sátira política,  os Diálogos no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu ou A política de  Maquiavel no séc. 19, por um contemporâneo (1864), de autoria do advogado  parisiense Maurice Joly. A trama do livro é um complô elaborado no Inferno.  O alvo, Napoleão III e seu regime despótico. No texto, os judeus sequer  são mencionados... 

A sátira de Joly chega à Alemanha em plena efervescência liberal, auge  da proliferação das teorias racistas. O livro cai nas mãos de Herman  Goedsche, anti-semita convicto, agente incitador da polícia secreta  prussiana, conhecido por forjar cartas usadas para incriminar líderes  democráticos. Escrevendo sob o pseudônimo de Sir John Retcliffe, Goedsche  "adapta" a sátira política de Joly de modo a criar uma "fantasia" sobre  a existência de uma conspiração judaica; e incluiu tal "conto" em seu  romance, Biarritz, publicado em 1868. No capítulo denominado "O Cemitério  Judaico em Praga", o autor "narra" um encontro secreto de rabinos, à  meia-noite, quando eram avaliadas as ações realizadas nos últimos cem  anos, para dominar o mundo, e eram planejadas as do século seguinte. 

O conto de Goedsche encontrou terreno fértil na Rússia czarista, onde  foi traduzido pela primeira vez em 1872, reaparecendo em 1891 sob o  título de Discursos do Rabino. O texto foi utilizado pela Okhrana, a  polícia secreta do Czar Nicolau II, para dar substância às suas posições  anti-semitas. 

A criação dos Protocolos 

Após o Caso Dreyfus, em Paris, por volta de 1895, os agentes da Okhrana  viram a possibilidade de "adaptar" o texto de Joly. E assim - sem que  se saiba ao certo por quem - "criou-se" um panfleto que recebeu o título  de Os Protocolos dos Sábios de Sião. O manuscrito foi levado à Rússia  e, em 1903, teve sua publicação iniciada, em capítulos, no jornal russo  Znamya (A Bandeira).

A versão do texto, que circula até hoje, foi publicada pela primeira  vez por Sergei Nilus, em 1905, como adendo de seu livro, The Great within  the Small. Naquele mesmo ano, após a Revolução de Outubro, o czar Nicolau  II, a contragosto, promulgou a Constituição e criou o Duna, parlamento  russo. Ansioso para esvaziar a revolução, o Czar achou por bem culpar  nosso povo por todos os males da Rússia. Manda publicar, então, para  incitar as massas, panfletos incendiários. Os de distribuição mais ampla  foram Os Protocolos, que, segundo a Okhrana, eram a "prova incontestável"  das intenções judaicas contra a Rússia. 

Foi após a Revolução de 1917 que Os Protocolos adquirem vida própria.  Quando a elite russa foge para outros países da Europa, leva consigo  o panfleto, apresentado como "prova" de que a Revolução Bolchevique  era parte de uma conspiração judaica mundial. Rapidamente, o conteúdo  dos Protocolos se difundiu por vários países, tornando-se excelente  munição para qualquer governo que desejasse perseguir os judeus. No  ano de 1920, são lançadas em vários países (Alemanha, Polônia, França,  Inglaterra e Estados Unidos) as primeiras edições não escritas no idioma  russo.

Provas da falsificação 

Vimos acima que, ao longo dos anos, Os Protocolos foram repetidamente  denunciados como fraude. Em agosto de 1921, o jornalista inglês Philip  Graves faz uma denúncia pública do embuste, em dois artigos no jornal  The Times, de Londres, onde prova que o panfleto difamatório era um  plágio da sátira de Joly, Os Diálogos no Inferno. Nos artigos Graves  aponta, uma a uma, as "extraordinárias semelhanças" entre os dois textos,  publicando, até, uma tabela comparativa dos mesmos, lado a lado; a paráfrase  é irrefutável. Até o suposto "plano judaico de dominação mundial" não  passa de uma transposição do discurso entre Maquiavel e Napoleão, no  original de Joly, e os planos dos dois para os Estados europeus se tornam,  nos Protocolos, o "plano judaico para dominar todo o mundo cristão". 

Graves aponta, também, as inúmeras versões sobre como o texto teria  chegado às mãos de Sergei Nilus. Pela edição russa de 1905, as minutas  teriam sid